Toda profissão, cedo ou tarde, é confrontada pelo tempo. Algumas se atualizam. Outras desaparecem. Mas todas, sem exceção, são sustentadas por algo que vai além da prática: a capacidade de deixar rastros, reflexões, registros. E é nesse ponto que a escrita revela uma força maior do que, às vezes, somos capazes de enxergar.
Embora eu acredite que o profissional de eventos jamais deixará de existir, os registros escritos, especialmente os de natureza reflexiva ou literária, ainda são escassos, considerando o impacto e a relevância que essa profissão tem na sociedade. Nem toda profissão resiste ao tempo. Algumas se reinventam, outras são engolidas pelas mudanças. Mas as que permanecem, invariavelmente, criam mecanismos de documentação, reflexão e compartilhamento de saberes. E aqui, não falo apenas da escrita acadêmica ou técnica, mas da escrita como exercício de pensamento estruturado, como ferramenta de memória e como prática coletiva de valorização profissional.
Nos últimos anos, é verdade, tivemos avanços importantes, dezenas de livros foram lançados, e novas iniciativas começaram a florescer. Mas a intenção aqui não é apontar o que falta, e sim provocar novas contribuições. Estimular mais mentes pensantes a se somarem à construção do nosso saber coletivo, como grupo, como setor, como comunidade profissional.
Como coletivo, especialmente entre aqueles que estudam, atuam e refletem sobre eventos, temos feito uma provocação que precisa ecoar entre eventólogos, estudantes, técnicos, produtores, gestores e tantos outros profissionais: escrever colabora com o coletivo? A escrita também é uma ferramenta de expansão?
Escrever é organizar o que se sabe. É aprender ao explicar. É transformar a intuição em método, a prática em referência. Não para todos, talvez, mas certamente para muitos que buscam compreender com mais profundidade os caminhos da profissão. Mas será que todos precisam escrever? Não. E talvez nunca precisem. A escrita não precisa ser obrigação coletiva para ter valor. No entanto, se ninguém escreve, ou se apenas poucos se dedicam a isso, muito do que é vivido se perde pelo caminho. É verdade que há profissionais que escrevem, publicam e compartilham. Mas ainda há um vasto conhecimento disperso, fragmentado e silencioso, que poderia se tornar fonte de aprendizado, inspiração e construção de repertório para toda uma comunidade. Quantos aprendizados permaneceram guardados na memória de alguém — e, ao não serem registrados, se perderam com o tempo?
Diversos estudos apontam que a escrita, quando utilizada como prática reflexiva, contribui significativamente para o desenvolvimento profissional. A obra Writing for Professional Development (Ortoleva et al., 2016) demonstra que escrever sobre a própria prática ajuda não apenas a comunicar ideias com mais clareza, mas também a compreender melhor os processos envolvidos na atuação profissional. A escrita, nesse sentido, passa a funcionar como uma ponte entre o fazer e o pensar — integrando teoria e experiência. É através desse exercício contínuo que muitos profissionais fortalecem sua identidade, evoluem nas suas práticas e contribuem com o repertório coletivo de sua área.
O problema não está em aprender fazendo. O problema está em não registrar o que se aprende, ou, o que é ainda mais comum, registrar muito pouco. A escrita não serve apenas para ensinar os outros. Ela serve para estruturar ideias, testar hipóteses, propor caminhos e até mesmo questionar o que parece já estabelecido.
Existe uma relação essencial no desenvolvimento profissional que é, muitas vezes, tensionada: a relação entre academia e mercado. Não se trata aqui de opor visões, mas de reconhecer que a base da academia é a pesquisa, e a base da pesquisa é o registro. Seria possível avançar mais na qualidade da atuação profissional se tivéssemos mais materiais escritos que conectassem teoria e prática? Provavelmente sim. Mas a intenção deste texto não é discutir metodologias de ensino, planos de aula ou a forma como o mercado de eventos dialoga — ou não — com a academia. O convite aqui é para um recorte específico: como uma profissão sobrevive ao tempo? E qual o papel da escrita nesse processo?
Quando a pesquisa nasce da prática, da observação, dos testes e da experimentação, ela tem o potencial de retroalimentar o mercado com um conhecimento mais profundo, consistente e aplicável. Da mesma forma, a academia também se fortalece ao incorporar as dinâmicas reais de um setor como o de eventos, um setor que é, ao mesmo tempo, generalista e especialista, técnico e sensível, estratégico e caótico. Esse diálogo ainda precisa amadurecer. E talvez, entre tantos caminhos possíveis, a escrita seja um dos mais potentes para construir essa ponte.
Toda teoria, em algum momento, nasce de uma prática registrada. E toda prática tem potencial de evoluir quando é relida sob novos olhares, com outras lentes, em diferentes contextos. Sem memória, não há avanço contínuo, apenas repetições e improvisos. É justamente por isso que os registros importam tanto. Seja na forma de relatórios técnicos, relatos de bastidores, metodologias sistematizadas, reflexões pessoais, cartas abertas ou diários de produção, esses documentos criam um acervo vivo. Um saber que se move, se compartilha e se preserva, sem depender apenas da oralidade ou da memória individual para existir.
“O saber é feito para ser acentuado, acumulado, valorizado, investido, redistribuído.” — Michel Foucault, A Arqueologia do Saber (1969)
A escrita é ponte entre gerações. O que você aprendeu pode ser justamente o que alguém está tentando descobrir agora. Profissões que se fortalecem no tempo são aquelas que sabem dizer o que fazem — e por que fazem. A escrita é uma forma de produzir pertencimento, de criar marcos históricos, de alimentar debates públicos e políticos sobre o setor. Ela é ferramenta de afirmação profissional, de reconhecimento e de construção de identidade coletiva.
Talvez você nunca tenha se imaginado escrevendo. E tudo bem. Escrever não precisa ser sobre assumir o papel de autor, mas sobre reconhecer que há algo a ser compartilhado. Talvez escrever seja menos sobre deixar uma marca individual — e mais sobre participar de algo maior, de uma construção coletiva. A escrita não é o fim. É meio. De continuidade. De memória. De possibilidade.
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.” — Paulo Freire, A importância do ato de ler (1982)
Antes de escrever, observamos, sentimos, vivemos. Cada profissional carrega consigo um acúmulo de experiências que, ao serem organizadas em palavras, ganham potência de transformação. E você? Que parte da sua experiência já poderia se tornar registro? Que leitura de mundo você devolveria em forma de palavra?
Talvez seja hora de escrever. Ou, ao menos, de reconhecer o que ainda vale a pena ser contado.
“A palavra é a morada do ser.” — Rubem Alves
Referência: PORTAL RADAR. Fórum Eventos 2024 vai lançar oito novos livros da Coleção Conecta Eventos. Portal Radar, 2 abr. 2024. Disponível em: https://portalradar.com.br/forum-eventos-2024-vai-lancar-oito-novos-livros-da-colecao-conecta-eventos. Acesso em: 15 abr. 2025.
Referência: FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
Referência: ALVES, Rubem. O desejo de ensinar e a arte de aprender. Papirus Editora, 2003.
Referência: Ortoleva, G., Bétrancourt, M., & Billett, S. (Eds.). (2016). Writing for Professional Development. Studies in Writing, Vol. 32. Leiden/Boston: Brill.
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